SÓ EU COMIGO MESMO.

POR: KIKO BUNGUS

SÓ EU COMIGO MESMO

Atendendo a sugestões, vou relatar uma aventura pra lá de solitária e introspectiva, que me fez ver a vida de outro ângulo.
Era 2002 ou 2003, mais uma vez eu estava indo pra Indonésia sozinho e a ideia dessa viagem era finalmente conhecer Nias e as ondas da região, especialmente as Mentawais, a nova fronteira que se abria na época, ainda pouco conhecida.


Então em vez de comprar o bilhete pra Denpasar ou Jacarta, como geralmente a galera fazia, e só depois de alguns dias de descanso partir pra Medam, em Sumatra, de lá pra ilha de Nias e seguir pra Lagundri Bay, onde fica a onda de Nias, eu resolvi comprar o bilhete até Kuala Lumpur, na Malásia e de lá pra Medan, descansar 1 ou 2 dias em Medan, depois comprar um bilhete pra Sibolga, no extremo norte de Sumatra, ali pegar um barco pra Telukdalan e de lá ir pra Lagundri.

SÓ EU COMIGO MESMO
SÓ EU COMIGO MESMO

O plano parecia simples e fácil.
Enquanto eu seguia acordado nas horas de voo e de conexão, eu aproveitava pra estudar inglês e Bahasa, o dialeto indonesiano, já que em muitos lugares que eu passaria ia ser difícil encontrar quem falasse inglês.


Bom, chegar em Medan foi fácil, mas não consegui relaxar pois não consegui um voo pra Sibolga, então aproveitei que na época tudo por lá era ainda mais barato que em Bali e do aeroporto peguei um transporte de van pra Sibolga. A ideia era dormir nas horas de viagem até lá.


Mas o caminho era tão interessante que também não consegui dormir, hipnotizado pelas paisagens deslumbrantes que eu via pela janela da van, enquanto treinava meu bahasa com o motorista.

SÓ EU COMIGO MESMO
SÓ EU COMIGO MESMO

Eram campos e campos de arroz sendo plantados e colhidos com as mãos. O arroz sendo colocado pra secar na beira da rodovia, o que fazia os motoristas terem que ziguezaguear quando vinha outro veículo na direção contrária. Por sorte, ou azar, ele não andava a mais de 60 Km/h.


Chegamos no início da noite, dormi em um hotelzinho perto do porto, no outro dia peguei o barco pra Telukdalan e de lá um táxi pra Nias.


Na época Nias era um vilarejo bem rústico e com poucas pousadas de fato.
Das poucas que já haviam tinha a do Barriga, que além de ser bem estruturada, com banheiro na pousada e refeitório, o Barriga falava alguma coisa de português e era um cara extrovertido, brincalhão e gente boa.

SÓ EU COMIGO MESMO
SÓ EU COMIGO MESMO

Como sempre, eu fui recheado de mercadorias de surf na bagagem, já que eu fechava minha surf shop pra viajar e levava um monte de mercadorias dela pra vender ou trocar, entre pranchas, cordinhas, calções, lycras, parafinas, quilhas e muito mais.


Naquele buraco que era Nias essas mercadorias valiam ouro, uma vez que a onda é forte, quebra muitas pranchas e arrebenta muitas cordinhas e quilhas.
Até ensinei uma molecada a fazer consertos e tirarem um trocado.


Tava muito bom em Nias, com muita onda boa e dias preguiçosos, pensando na vida e imaginando estratégias pra eu trabalhar menos e me divertir mais, mas eu queria mesmo era conhecer as Mentawai antes que, como outros lugares, acabasse ficando crowd.

SÓ EU COMIGO MESMO
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Falando com o Barriga Nias ele indicou uma pequena ilha próxima nas Mentawais chamada Nian Nian, que ele conhecia a família de pescadores que morava lá e eles podiam me abrigar e levar pro surf por U$ 100,00 por semana, mas eu teria que levar toda a comida, mosquiteiro, combustível e tudo que precisasse. Eu só tinha que estar disposto a ficar isolado e na “rootzera”, ou seja, ainda mais jogado do que estava em Nias.


Beleza, o preço era bom e eu tava mais que acostumado a ficar jogado como um rato selvagem.
Dei uma grana pro Barriga agilizar as coisas e depois de umas 12 horas eu tava numa ilha das Mentawai do tamanho de alguns poucos campos de futebol, que eu conseguia dar a volta nela toda em menos de 1 hora e tinha uma vista deslumbrante de um infinito azul povoado por outras pequenas ilhas cheias de ondas.


Armei meu mosquiteiro debaixo de uma cobertura sobre um tablado de madeira onde eu dormia em cima da capa das pranchas e meus dias se resumiam em acordar com os galos cantando, tomar um café reforçado, esperar os homens saírem pro mar e ver com quem eu ia pegar o barco pra ir surfar enquanto quem me levava ficava pescando no canal, voltar pra ilha, comer, descansar, ir surfar de novo até o fim de tarde, voltar, comer e dormir.

SÓ EU COMIGO MESMO
SÓ EU COMIGO MESMO

Era estranho surfar sozinho ondas perfeitas como as que hoje chamam de Burguer Word, Playground, etc, e na época nem nomes tinham.
Era como se eu tivesse escalado o Everest e ninguém tivesse visto, ou se eu tivesse descoberto a cura pra uma doença e depois morrido, sem conseguir falar da cura pra ninguém.

Depois de alguns dias, em vez do sentimento de preenchimento pelo surf, eu sentia um vazio existencial, e minha alegria era até maior convivendo com aquelas pessoas, comendo, pescando, conversando e brincando com elas do que o surf propriamente dito. Eu até torcia pra, quem sabe, encontrar uma boat trip.

Embora eu fizesse a cabeça nas ondas e me esforçasse pra ficar o máximo de tempo surfando pra me cansar e dormir bem, as vezes eu pensava em sair logo da água pra ir interagir com Ioman, Bebet, Dalan e outros novos amigos, que há gerações vivam exatamente da mesma maneira, num estilo de vida quase tribal, baseado em fumar acocorados aquele fumo com cheiro de Gudan, enquanto consertavam redes, pintavam os barcos coloridos, cuidavam dos galos de briga, faziam móveis e artesanatos ou comiam com as mãos em refeições demoradas e cheias de conversas que eu não entendia.

Ou aprendendo o dialeto local enquanto as crianças curiosas perguntavam o que eram aquelas muitas coisas estranhas que eu carregava como suprimento pro surf.

SÓ EU COMIGO MESMO
SÓ EU COMIGO MESMO

Imerso naquele estilo de vida totalmente diferente do meu eu imagina como estariam as pessoas em Floripa?

O que estariam fazendo enquanto eu estava lá no meio do nada, cercado de água e sob um céu espetacularmente limpo e estrelado?

Depois de dias explorando as ondas ao redor de Nian Nian, eu voltei pra Nias pra finalizar a trip surfando por lá, enquanto vendia o resto das coisas que tinha levado, pra não trazer nada de volta, a não ser alguns artesanatos exóticos, presentes de nativos e a certeza que onde quer que estejamos, o estilo de vida pode ser totalmente diferente, mas tudo que importa é estarmos em paz, pois não existe dia feliz sem paz de espírito e não existe sentido levar uma vida onde os dias não sejam de paz.

No fim das contas não interessa a velocidade e sim a direção que seguimos.

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