Por: Kiko Bungus

No final dos anos 90 e início dos anos 2000 ir pra Bangko Bangko (Deserto Point) ainda era uma grande aventura.
Depois de atravessar o estreito de Lombok vindo de Bali, chegando ao porto do Mabua, era preciso pegar uma estrada estreita e esburacada que levava ao Sekotong e de lá seguia pra Desert afunilando cada vez mais o caminho até virar uma mera picada de terra só transitável de 4×4, contornando uma montanha e passando por dentro de um milharal até chegar no pico.
O lugar mais perto pra ficar hospedado era o Bola Bola a uns 6 KM de Desert a um custo de uns U$ 5,00 por pessoa/dia, enquanto o pico que ficávamos no Sekotong custava U$ 5,00 o bangalô pra 2 ou 3 pessoas.sekotong-6Normalmente no começo da viagem ficávamos no Bola Bola e no fim dela, já sem grana, ficávamos no Sekotong.
O pico no Sekotong era sinistro, lembrando muito um filme de 5ª categoria da guerra do Vietnã.
Embora a família que administrasse o lugar fosse até meio amigável, eles tinham um jeito desconfiado e não nos sentíamos totalmente relaxados.
Dormir nos bangalôs precários não era difícil depois de longas seções de surf que nos deixavam exaustos, mas o duro era bater um rango depois de ver a falta de higiene daquilo que seria uma cozinha e de ver as unhas grandes e negras do pessoal que fazia e servia a comida. As unhas pareciam garras que eram cuidadosamente afiadas na terra, coisa bem grotesca!
A gente comia por necessidade mas torcendo pra não ficar doente e que nenhum dedo daquele escorresse pra dentro do prato.
Por vezes preferíamos dar 20.000 Rúpias pra algum moleque da vila pegar um caranguejo gigante e pedíamos pra só cozinhar ele. Era algo mais garantido.
Mas a gota d’água foi um dia que depois de chegarmos do surf mortos de fome no início da noite, resolvemos todos pedir um Nasi Goreng (Arroz frito com legumes), pra ficar pronto mais rápido, já que Mie Goreng (Macarrão frito, nosso favorito) era raro ter.
Quando chegaram os pratos a raça se olhou com tristeza e medo, o cheiro que subia era meio azedo e a cor estava entre o esverdeado e roxo. A impressão é que o arroz tinha fermentado e azedado com o calor do dia e eles acharam melhor nos servir aquela gororóba do que jogar fora.sekotong-2 sekotong-5Apesar da fome nem eu com meu estômago de lata tive coragem de comer aquilo.
O pessoal da cozinha nos olhou com um ar meio ameaçador e ficaram resmungando contrariados.
Eu remexi a comida esperando achar algo comestível ali no meio e pra fazer de conta que tava comendo, mas não deu, era muito repugnante.
Pedi uns ovos fritos, mas foram enfáticos e até grosseiros em dizer que não tinha. Pedi panqueca de banana (algo que comíamos no café da manhã), mas também disseram que não tinha, com a delicadeza de um rinoceronte enfurecido. Parece que nosso filme tinha torrado por não termos comido a comida estragada.
Bom, nesse ponto eu e a galera já tínhamos nos conformado em dormir com fome, mas depois de ver tanta agressividade por parte do pessoal da pousada já pensávamos em pagar a conta e ir embora, antes que acabássemos virando comida de caranguejo.
Aquela noite dormimos com fome e medo.
A memória do caso de um brasileiro que quase perdeu a vida e um braço após ser agredido a fação e foice depois de ter a barraca dele roubada lá em Desert nos dava uma ideia de como lá era perigoso e não era seguro contrariar as pessoas.
Ficamos agradecidos de acordarmos vivos.
Depois de pagarmos a conta nos mudamos pro Bola Bola e nunca mais voltei a ficar no Sekotong.
Melhor não economizar dinheiro pra não desperdiçar a vida.sekotong-4 sekotong-3Leia mais Kiko Bungus

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