Pânico em Banko Banko

Por: Kiko Bungus

Até início dos anos 2000 Banko Banko, também conhecida como Desert Point em Lombok era realmente “desert”, pois não tinha nada por perto e a pousada mais próxima era o Bola Bola a uns 10 km por uma estrada esburacada, estreita e horrível em que no último trecho que contornava o morro só se passava de 4X4. Mesmo assim sempre que entrava um swell consistente, com mais de 10′ em Bali muitos optavam pra ir pra lá já que as condições nos picos de Bali ficavam um tanto pesadas e em Padang Padang e Biguin, os que seguravam melhor a forte ondulação, o crowd era intenso e chato.
Pra ganharmos tempo e chegarmos sempre antes da galera que ia de carro ou boat trips optávamos por ir de Mabua, um catamarã Fast Boat que navegava super rápido e chegando no porto de Lombok, seguíamos de barco até a ilha de Guili Nanggu, que além de barata e paradisíaca, ficava a cerca de 1 hora de barco de Desert.
O barco da pousada da ilha já nos esperava no porto do Mabua sempre que a gente fazia a reserva pra ficar na ilha na duração de um bom swell.
Bom, esse dia em questão acordamos todos animados com as condições que pareciam ideais. O dia anterior já tinha sido demais e sem crowd e o swell que encostava era forte e associado a uma Lua cheia o que indicava que na hora da maré seca teríamos expressos longos e tubulares, uma vez que a onda quebra em uma bancada rasa em uma extremidade da ilha de Lombok localizada em um estreito entre 2 ilhas que é considerado um dos mais profundos do mundo e onde a força da corrente nas marés é brutal. Uma onda forte quebrando no contra fluxo da corrente naquelas condições é coisa que acontece em poucos lugares do mundo e por isso Desert é sempre considerada por especialistas uma das 5 melhores ondas do planeta.
Entramos no barco já pressionando o barqueiro pra esgoelar o motor e ir o mais rápido possível, estávamos em umas 9 pessoas, sendo o barqueiro, eu, Sandro Bianchini Gordinho, a mulher dele, Leléco, Negão Jorge, Tadashi, Léo Caquinho, um gurizão do Rio Tavares que esqueço o nome e a gatinha dele.

Seguimos eufóricos e ao mesmo tempo tensos, porque víamos pelas ondas quebrando nas bancadas do caminho que o mar estaria grande e forte, bem maior que o dia anterior e exigindo responsa!
Quando chegamos a pequena baia protegida onde ficam as boat trips, antes da bancada de Desert, vimos linhas perfeitas atravessando toda a bancada, em 3 seções bem definidas e a onda acabava só naquela baia protegida, ou seja, tava clássico e grande! Gritaria geral, se pudéssemos sairíamos correndo sobre as águas. O barqueiro seguia por fora do out side das ondas enquanto os que já estavam prontos iam se jogando no mar pra pegar a seção que mais gostassem.
Eu, Gordinho, a mulher dele, Negão, Leléco e a gatinha do camarada seguimos até o pico e chegando lá era impressionante de ver séries de 6′ a 8′ plus quebrarem limpas e com mais de 10 ondas e o mar ganhava força a cada nova série, com power impressionante, assim como a força da corrente no contra fluxo, fazendo com que o surfista não pegasse a onda e sim a onda pegasse o surfista.
Arrumávamos as pranchas maiores e botávamos as cordinhas mais grossas quando de repente o motor do barco morreu. Aparentemente tava tudo certo, o barqueiro logo faria ele pegar de novo, mas não foi o que aconteceu! Parece que a força do vento e os esguichos de água constantes no caminho molharam muito o motor, entrou água e ele não pegava por mais que o barqueiro puxasse a cordinha de ignição. Começamos a ficar preocupados porque a corrente nos levava cada vez mais pra baixo do pico, no ponto crítico e com ondas cada vez maiores. A cara nervosa do barqueiro nos deixava mais preocupados ainda! O pânico bateu quando uma nova série despontou e aparentemente iria nos pegar em cheio. Passamos a remar como dava pro fundo, com as mãos, com as pranchas e tudo que desse, enquanto o barqueiro agora já trabalhava com o motor desmontado e tentava secar a vela, cabo de vela e outros componentes do motor com um pano seco. Leléco e Negão foram pra água e ficaram perto do barco aguardando os acontecimentos pra talvez ajudar em algum resgate. A adrenalina era tanta que a boca já amargava e quando a 1ª onda nos pegou o barco quase virou, na 2ª fomos pra proa pra evitar que o barco capotasse com o lip, enquanto isso nós rezávamos internamente e as mulheres guardavam equipamentos fotográficos, eletrônicos e similares em sacolas e bolsas pra não molhar e se preparavam pra pular. As expectativas eram aterradoras. Se o motor não pegasse logo e com a corrente nos levando cada vez mais pra baixo do pico, alguma onda nos pegaria a qualquer momento e perderíamos muitas coisas, o barco e com aquele mar bravo e corrente alguém poderia morrer. Foi então o motor pegou, o barqueiro acelerou o máximo possível e conseguimos sair no limite do limite da área de risco com as maiores ondas da série chegando. O clima era tão tenso que levou um bom tempo pra gente recobrar os nervos e a consciência das coisas.
Eu e o Gordinho pulamos na água pra ir surfar enquanto o barco seguiu de volta a Guili Nanggu pra levar as mulheres que não queriam mais ficar lá. Ele voltou pra nos buscar várias horas depois e aí já estávamos com outro espírito, com a cabeça feita depois de termos pego algumas das melhores ondas das nossas vidas, num dia épico e inesquecível por vários motivos.

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