“Maré da Lata” A Guerra Parte 1

“Maré da Lata” A Guerra Parte 1

Por: Kiko Bungus

O verão de 87 pra 88 foi sui generis no Brasil, principalmente no litoral dos estados do Rio, São Paulo, Paraná e Santa Catarina, onde as cerca de 20 mil latas recheadas de maconha tailandesa despejadas pelo navio Solana Star apareceram em maior quantidade.
Nessa época eu costumava passar os verões em Porto Belo, onde meus pais tinham uma casa de praia, assim como grande parte da minha família pelo lado da minha mãe.
Eu já surfava a vários anos e dividia meu tempo entre o surf nas praias da região, a pesca com os primos e as nights nos diversos bares de praia que bombavam naqueles verões cheios de energia, alegria e descontração dos anos 80. A festa parecia que não acabava nunca, assim como a disposição. Áhhhh meus vinte e poucos anos…..
Até aquele verão eu nem me dava conta da existência dessas latas de bagulho flutuando no mar e fazendo a alegria da rapaziada e só me liguei quando vi que vários dos amigos filhos de pescadores e pescadores mais velhos começaram a mudar de vida e comprar carros novos e imóveis. De repente parecia que a pesca tinha se tornado um trabalho muito lucrativo. E perguntando fiquei sabendo de onde estava vindo tanta grana.
As latas tinham se tornado um objeto de cobiça e desejo e agora muitos pescadores saim pra pescar latas e não peixes.

Maré da Lata A Guerra Parte 1.
A princípio eles não sabiam o valor das latas e vendiam a preços baixos pros traficantes locais, até se darem conta que eles poderiam lucrar muito mais vendendo diretamente pra ávidos consumidores, isso transformou momentaneamente alguns pescadores em traficantes, o que trouxe grana pra alguns mas também muitas mortes lá pros lados de Porto Belo, Itapema e região. Uma lata valia o equivalente hoje a um carro popular, pelo menos.
Os traficantes tradicionais se sentiram traídos e subjugados por traficantes amadores que tinham um bagulho muito mais valioso e de melhor qualidade que os deles, o que atrapalhava significativamente seus negócios. Daí pra começarem a carnificina foi um pulo.
De uma hora pra outra achar uma lata tinha se tornado um grande problema e perigo. O clima ficou tenso!
Conheci alguns pescadores que morreram pelas mãos de traficantes que foram roubá-los e o jogo foi ficando cada vez mais grave ao ponto de eu e alguns amigos quase morrermos no meio dessa guerra.
Em uma noite saímos pra comprar uns garrafões de cachaça no Alambique do Pedro Alemão em Santa Luzia e chegando em um ponto mais estreito da estrada que passava no meio de um canavial começamos a ouvir estampidos que pareciam tiros, mas não demos muita bola, até que começaram a sair um monte de malucos correndo de dentro do canavial como loucos e atravessando a rua na nossa frente. Foi uma doidera. Não sabíamos mais o que fazíamos, se íamos em frente ou dávamos um jeito de dar a ré e ir embora. E só quando vimos o que pareciam luzes da polícia e mais tiros vindo lá em frente no canavial resolvemos sair do meio daquele furdunço. A Brasília do meu pai nunca correu tanto, conseguimos chegar em casa ilesos e esbaforidos algum tempo depois, e com os para choques do carro com canas penduradas.
Embora o bagulho da lata tivesse feito a alegria e a cabeça de muitos, ela também veio carregada de problemas e trouxe muita morte e tristeza pra quem se deslumbrou com seu poder.
Mas essa é só uma parte da história.

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