GAROPABA 80 E POUCO

Por Kiko Bungus

Eu tinha 16 anos, uma fissura doentia pelo surf e já ganhava meus trocados consertando as pranchas dos amigos, fazendo uns bicos de serigrafia e sempre que tinha uma graninha eu entrava na disputa acirrada pelos poucos lugares nas barcas da época, geralmente com o Borracha, Póc ou Gabriel, que eram mais velhos e já tinham carro.
Então pintou a oportunidade ir pra Garopaba num feriadão com o Borracha numa barca com mais o Haroldo (irmão do Ronaldo Figueiredo) e o Jan Bruinjé.
Naquela época uma barca dessas era planejada com umas 2 semanas de antecedência só pelo perrengue que era. Como era verão, sabíamos que ia ser difícil conseguir lugar pra ficar, por isso levamos barracas.

Saímos quase na madruga de sexta e chegamos lá no começo da manhã já procurando uma padaria pra encher o bucho antes de uma seção de surf sem hora pra acabar.
Na padaria que paramos o Haroldo já se deu muito bem pra cima da atendente que era filha da dona, e ele mal comeu alguma coisa. A gente deu muita risada com aquele papo mole dele de carioca pra cima da Biquirinha que se derretia toda. Ele nem queria mais ir surfar e foi um trabalho tirar ele daquela babação.
Tocamos pra Ferrugem e deixamos a Variant quase na areia lá no meio da praia, perto daquele barraco de pescadores mais pro canto da Barrinha, onde sabíamos que rolava uma night forte e a gente tava louco pra conhecer. Não recordo mais o nome do lugar mas lembrava muito o Barulho do Mar na Mole nos bons tempos.
Surfamos o dia todo até anoitecer, comemos alguma coisa e nem pensamos em montar barraca nenhuma, esperamos a night começar e fomos pra diversão.
Não lembro se alguém se deu bem, eu sei que não peguei nada mas curti muito a sonzera e a bagunça que foi até de manhã.

GAROPABA 80 E POUCONo outro dia curamos a ressaca no surf e depois tocamos pra conhecer a Silveira.
Demos uma parada na padaria da “gatinha” do Haroldo pra fazer uma boquinha e quase acabamos com o estoque de comida do lugar. Coisa feia, depois tocamos.
Deu o maior perrengue pra subirmos aquele morro íngreme de estrada de terra toda esburacada e quando finalmente chegamos na praia o pico do costão tava uma merréca braba então resolvemos cair mais pro canto esquerdo, onde hoje chamam de Tyson. Tava divertido, sem ninguém, água clara e já resolvemos ficar por ali mesmo de novo jogados, uns dormindo dentro do carro e eu fui dormir na capa da prancha na areia, sob as estrelas.
No meio da madruga fui acordado por uns pingos de chuva na cara e assim que abri os olhos deu pra ver vários relâmpagos, ferrô! Em pouco tempo caiu o mundo e tivemos que ficar embolados no carro esperando ver o que acontecia e rezando pro carro conseguir subir a morranca no outro dia.
A chuva parou, amanheceu com um solzão bonito e ondas ainda melhores. Apesar da fome carcomendo as entranhas nós surfamos até não aguentar mais e fomos pra prova de fogo do morro. Uma ou outra derrapada mas deu tudo certo!
Paramos na padaria de novo mortos de fome prontos pra destruir tudo. Acho que 80% da grana que levamos nós gastamos naquela padaria pra alegria da senhorinha e da “namorada” do Haroldo. Ele quase ficou por lá mas no final acabou vindo junto, resmungando arrependido.
Sempre que volto pra Garopaba e sinto os cheiros peculiares de lá eu lembro dessa barca memorável.

Kiko Bungus é biólogo, surfista, fabricante de pranchas de surf, viajante, ambientalista, fotógrafo e empresário do ramo da gastronomia

VEJA MAIS KIKO BUNGUS NO IN PARADISE! CLIQUE AQUI!

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.