FREE WILLY.

Por: Kiko Bungus

Em meados da década de 90 eu tirava uns trocos extras com a muambagem de artigos de inverno como complemento de renda depois da temporada de verão, quando eu realmente fazia o grosso do meu dinheiro com a fabricação, conserto e venda de pranchas de surf.
Acabava a temporada, eu comprava o bilhete pro Perú ou Equador, pegava uns dólares que tinham entrado no verão, botava umas 5 a 6 pranchas no sarcófago junto com um monte de acessórios, lycras e calções que tinham sobrado e me jogava pra uma temporada de surf e negócios.

Entre um surf e outro eu vendia as pranchas e muambas do verão aqui e com a grana que entrava eu comprava roupas de inverno, como casacões de lã, chompas de Alpaca, tocas, cachecóis, tapetes, etc, pra vender aqui, em uma época onde ainda tínhamos invernos rigorosos. 

As vezes o inverno era tão frio que eu chegava, vendia tudo e ainda dava pra voltar a viajar, surfar, comprar mais uns artigos de inverno, voltar e vender tudo. Assim a surf trip ficava muito mais em conta.

O negócio era tão bom e divertido que as vezes eu me passava e acabava comprando mais do que conseguia carregar.

Nessa ocasião em especial, quando fiquei um tempo na casa do meu amigoJoffre García em

Guaiaquil, eu me empolguei muito e na hora de carregar meu sarcófago pra voltar o bicho pegou.

Minha capa, onde cabiam facilmente 6 pranchas, ficou quase explodindo e precisava de 4 pessoas pra carregar aquele trambolho. Escrevi nela Free Willy como nome de guerra daquela capa incansável.

Tive que chamar um táxi caminhonete pra me levar ao aeroporto porque o teto do carro do meu amigo não suportou o peso.

Deu um trabalho danado levar aquele “bicho morto” até o guichê, já que as alças não aguentaram o tranco e na hora de fazer o check in na companhia aérea o sarcófago não cabia na balança, pra minha sorte.

Como naquela época eram permitidos 2 volumes de 35 kg, os atendentes me cobraram uma merreca a mais de excesso de bagagem e finalmente consegui embarcar, mas já preocupado com o voo de São Paulo pra Floripa.

Chegando em Sampa, passei pela alfândega de boa, como sempre, já que fiscais sempre tiveram pena do meu estado lastimável de surfista em fim de trip ao chegar no Brasil, e fui direto fazer o check in e me livrar daquele monstro.

No guichê da Varig, pra minha infelicidade tinha uma balança onde coube meu sarcófago e pesaram os incríveis 110 Kg dele.

Me ferrei, só de excesso dava quase o preço de outra passagem e eu não sabia mais o que faria quando começou um bate boca nos guichês, justo enquanto eu vivia aquela crise existencial.

Fui ver o que era e reconheci o Neco Padaratz e outros passageiros discutindo ferozmente com o pessoal da companhia. 

O voo tinha sido cancelado por problemas mecânicos na aeronave, todos os passageiros teriam que ser transferidos pra voos de outra empresa e partiríamos apenas horas depois.

Ganhamos voucher de almoço e aproveitei pra bater um papo com o Neco, que vinha de uma etapa de mundial, tava cansado e puto da cara.

Voltando no guichê da Varig depois do almoço, fomos informados que nossas bagagens já haviam sido transferidas pra um voo de outra empresa que não lembro mais qual e só teríamos que ir ao portão de embarque, ou seja, não precisei pagar excesso de bagagem nenhum. Ganhei na loteria!

Já em Floripa a galera que me esperava no aeroporto não acreditou no tamanho do sarcófago e menos ainda na quantidade de coisas que saíram dele lá em casa.

Aquela foi uma das minhas trips de surf/negócios mais lucrativa.

Pena que os invernos foram ficando cada vez mais curtos e quentes e essa firma se acabou, sendo substituída pela firma da prata e artesanatos de Bali e depois a de tequila. 

O surfista tem que se virar e adaptar como uma capa de viagem, das boas.

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