BJJ e o fantasma da contusão

Por: Xandão Barros

Encontrar asilo na arte suave foi, se não a melhor, uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida. O ganho físico, técnico e emocional, por si só, já teriam valido a pena. No pacote dos benefícios, humildade, perseverança, resistência e, principalmente, resiliência foram inesperados valores agregados, que, hoje no papel de mestre, tento passar aos alunos.
Um mito da arte suave, tradução da palavra japonesa Jiu Jitsu, são as contusões. Vale dizer que a praticar qualquer esporte em nível “hard”, machuca. Logo, contusões não são exclusividade da prática do Jiu Jitsu. Surfistas não estão livres de tomar uma quilhada ou da prancha bater na cabeça. Em nível de “faixas-preta” do surf, buscar o tubo perfeito em Pipeline ou em Bali pode custar caro no caso de um encontro pouco amigável com um fundo de pedra ou coral.

Na real, o que machuca é a inconsequência do praticante e, no caso da arte suave, a responsabilidade também é do mestre. No passado, o fomento do Jiu Jitsu era muito mais direcionado como forma de defesa pessoal, do que como o esporte competitivo que tornou-se. Confrontos valendo tapa (taparias), treinos de bloqueio (um soca e o outro tenta levar a luta pro chão) e brigas de galera ampliavam as possibilidades de contusão. Atualmente, o bom professor prepara os iniciantes, durante meses, com movimentos básicos para, quando preparados, encararem os mais graduados. Isso minimiza bastante os riscos de contusão.
Durante o último mundial de Jiu Jitsu, a estrela do evento se machucou. Marcos “Bochecha” lesionou o joelho e deve ficar um período fora dos tatames. Ossos do ofício, não quer correr risco, que vá dançar ballet na ilusão de que não vai se machucar! Ou opte por ser sedentário e jogue sua saúde no lixo! Fatalidades acontecem diariamente e, não necessariamente, existe um culpado para elas. Aliás, na maioria das vezes, não existe. O fato é: se o atleta almeja ser o melhor do mundo em qualquer esporte deve saber que a dor faz parte do caminho.

BJJ e o fantasma da contusão,

Penso que o principal objetivo no aprendizado da arte suave é o ganho de consciência corporal, técnica e, principalmente, emocional. Saca aquela frieza quando vamos tomar uma onda grande na cabeça? No Jiu Jitsu é igual, mas, ao invés da onda temos que relaxar no sufoco, no amasso. Entender o que está acontecendo e buscar uma saída. Muitas vezes a única saída é dar os três tapinhas e desistir. Tentar sair “na raça” é pedir para se machucar, enfim…
Brinco (falando sério) com os alunos: É melhor você saber Jiu Jitsu e nunca precisar usar, que um dia precisar usar e não saber. Não faz BJJ porquê tem medo de se machucar, mas joga futebol toda semana. Um risco tão grande ou maior que no tatame. Na boa, essa desculpa da contusão esconde o principal motivo de grande parte das pessoas não se interessar pela luta: EGO. Ninguém gosta de perder, muito menos para aquele magricela com cara de bobo. E, abraçados no próprio orgulho, perdem a chance real de adquirir um conhecimento milenar que tem o poder de mudar vidas e, inclusive, somar no seu surf.
Em tempo: nos tatames da vida, antes de pleitear a posição de martelo, o sujeito deve ser um excelente prego.

Bora pro tatame que tem onda !!!

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